O APOCALIPSE SEGUNDO JOCA REINERS TERRON

Dessa obra-sumidouro, verdadeira noite dentro da noite, brota uma flor canibal contagiante, espécie de erva daninha, uma hera senciente que se espalha e nos enlaça, nos levando de volta para o torvelinho de que ela mesmo saiu.

capa de Elisa v. Randow e ilustração de Susa Monteiro

Não existe o país

Deve-se encontrar algum crítico que não queira aparecer mais que a obra a ser criticada (excluso, portanto, o presente resenhista), um que talvez assine com pseudônimo, sem que isso seja passível de ser tachado de covardia. Algum estrangeiro, ou candidato a santo.

SÓ VALE A PENA O QUE PODE DAR ERRADO

e sem a possibilidade de dar tudo errado não há teatro, se bem que a possibilidade de dar tudo errado parece ser a essência mesma do teatro, prescindindo de qualquer corpo ou espaço amplo, afinal tudo tem a possibilidade de dar errado...

Ilustração de Conde Baltazar

As sete mil agonias do gato Tô

A agonia é uma vivência íntima da infância, bastando que não encaremos com olhos de pais cada um desses espécimes infantis. Pois os bebês estão agonizando a todo momento, e isso mesmo ou principalmente quando estão sorrindo.

Desenho de Manu Maltez

CARVÃO COR DE SANGUE

Para começar, o sujeito só precisa de esperança quando tá mergulhado na desgraça. E se ele precisa de esperança, o que tem de bom nisso?

Pintura de Anderson Santos - Cabeça#1 - Óleo sobre tela 30x30cm 2013

Xangai, o gato-pingado tresloucado que teima em guardar a moribunda alma desta terra

A caça pela diversidade musical, indelével em Xangai, faz as palavras de Elomar ganharem carimbo definitivo. De fato, um felino, um dos últimos de sua espécie, desvairado pelo som ancestral destas plagas.

Ilustração de Peu Dourado

Ensaio* crtl+alt+del: um artista-curador ziguezagueando em experiências de artes cênicas na internet

Como produzir presença, intimidade e cumplicidade com um desconhecido? E se essa pessoa fosse inventada e tivesse memórias e desejos produzidos por um grupo de pessoas? E se as histórias compartilhadas ao pé do ouvido e na palma da mão quisessem te fazer experimentar a passagem do tempo?

Série cabeças

Contemporâneo, antigo e presente, no elegante formato diminuto, ele vive a tradição da pintura no auge de sua forma.

TODA MÚSICA ESCONDE UMA PAISAGEM

E o ouvinte de hoje não quer tanto escutar músicas, no sentido antigo, mas escutar gestos com os quais possa se identificar. Queremos o gesto único, insubstituível, e a coragem que dele emana.

__________________________________Aquarela de Moisés Crivelaro

Todas as peças, nenhuma peça: um passeio pelas experiências do teatro virtual

Mas o teatro segue fazendo o que sempre fez: sobreviver. É incrível pensar que, numa época em que nenhuma peça está em cartaz, todas as peças estão em cartaz.

Desenho de Milton Mastabi

BBB DE BRASIL: COMO UM REALITY SHOW MOFADO FOI REAPROPRIADO POR UM PAÍS SEDENTO PARA JOGAR EM EQUIPE

O brasileiro estava desesperado para gostar de alguma coisa. Era morte demais, pobreza demais, meses demais vendo o país naufragar, sem poder fazer nada além de bater uma panela. A ideia de ver um grupo de pessoas trancadas em uma casa, sendo obrigadas a conviver umas com as outras, pode ter soado como uma solução.

Colagem de Vic Zacconi

Baiafro como princípio: Djalma Corrêa e a percussão afro-brasileira

“Baiafro é uma proposta cultural, a busca de uma nova linguagem em música e em dança, que reflita os anseios e o modo de ser do homem atual. Por ter nascido na Bahia, é negro, por ser brasileiro, mestiço e mutante, como todo o produto do terceiro mundo”.

Desenho de Moisés Crivelaro

A vida invisível de Patrick Personne

Para além da minha habitual rotina de trabalho, haveria então uma estranha forma de vida, para mim antes desconhecida? Uma vida invisível como a das plantas, que antes eu mal notava e logo passei a regar diariamente?

CEO III - Márcia Tiburi - (Acrílica sobre papel)

ÚLTIMAS HORAS

desenho de Clara Moreira

o homem caminhou pelo corredor do hospital, rumo à saída. entrou no vectra ainda com a sensação de que carregava Sim, no corpo
uma doença silenciosa e secreta que era a própria Vida.

Na tela, o cansaço: panorama em dimensões variáveis

Onde o sabor de aventura na viagem até às cidades dos festivais? Onde o cheiro das salas escuras, pescoços alongados para ver melhor o grande écran? Onde as festinhas com espectadores e realizadores enfim juntos no mesmo plano?

Fotografia de Mariana David

A espectadora de bolor

Sair do ensimesmamento, admitir a fragilidade e a fantasmagoria de todos os entes vivos também são formas de vitalidade. Que não estejamos imunes a elas.

Ilustração de Iuri Casaes

LUZA

 A espera no táxi, o trânsito sem fim, o encontro… Luza empresta o ambiente de “Luzia Luluza”, cantada por Gilberto Gil, mas ao contrário da letra dos anos 60, a…

Ópera rock de favela – um rolê pela cabeça de Mateus Fazeno Rock

Rolê nas ruínas é uma ópera rock de favela, contemporânea e realista, sem as cafonices de época dos clássicos do gênero, como alienígenas, seitas religiosas e o sofrimento que é ser um rockstar milionário.

Ilustração de Daniel Carvalho

E tu serás um ermo novamente

É fácil estender meus dedos tortos:
na Eternidade, estamos todos mortos.

Ilha dos mortos - Arnold Böcklin - Terceira versão, 1883

O pagador de promessas – um passeio pelas músicas e obra de Gerônimo

Sua figura é, ao mesmo tempo, culta, politizada e debochada, além de sempre muito exigente com a música, sem modéstia: Gerônimo está na linhagem de Xisto Bahia, Dorival Caymmi, Caetano e Gil, ao melhor estilo da cidade d'Oxum – aquela que é doce e vive se olhando no espelho, sem dispensar um tanto de vaidade.

Ilustração de Peu Dourado

UM OSSO DE MORTO

Caminhei por um trecho sem saber aonde ir: um instinto mais poderoso que a vontade me distanciava de minha morada. Onde buscar coragem para prosseguir? Eu receberia naquela noite a visita de um espectro e esta era uma ideia mortificadora, uma perspectiva aterrorizante.

Ilustração de Iuri Casaes

Para entender uma fotografia, observe um rio

Ainda hoje, muitas pessoas não possuem registros de seus familiares mais próximos. Por isso, volto a perguntar: quem tem direito à uma fotografia?

Colagem de Ema Ribeiro

Amargosa

Mas que raio de cabeças tinham essas pessoas para batizarem o local com tal nome? Será que a carne amarga das pombas era mesmo gostosa? Ora, ora, nome é coisa importante, nome é algo que se materializa nas identidades dos lugares, nome é força simbólica.

Assalto à agencia do Banco do Brasil em 2012. autor desconhecido

O Cinema na Pandemia: festivais em crise

O cinema, em seu modelo de exibição, vem sendo particularmente afetado. Os gigantes do streaming, que já se mostravam vorazes, avançam com muito poder de fogo numa luta cada vez mais desigual. Toda a cadeia de exibição está sendo desmontada.

Detalhe da pintura de Amine Barbuda

ARTE URBANA E OS CIRCUITOS DO BAIRRO DO COMÉRCIO

Sempre fico me perguntando por que em Salvador há o que chamo de “síndrome de reinvenção da roda”. Explico: cada vez que se faz alguma coisa, há certa negação do passado de ações similares e até parece que incomoda reconhecer que projetos do mesmo tipo podem somar na consolidação de trajetórias e circuitos.

Não acredito que a covid nos separa

Até então reagia às agressões enquanto um homem que apresentou uma performance. E enquanto homem, eu tenho medo. Enquanto artista, o medo existe. É diferente. Eu não “tenho” medo. O medo “está lá”.

Ilustração de Lia Cunha

Galáxia inexplorada – (brevíssimo mapa de cintilações na poesia contemporânea brasileira)

Não sou um crítico buscando ser histórico: sou um poeta oferecendo sua apreciação; ou seja, completude, também pelo espaço, é impossível. Não obstante, diante do negacionismo crítico que decreta sobre a poesia que está “tudo parado, nada acontece”, repito Galileu e digo eppur si muove.

Ilustração de Milton Mastabi

A Pedra Curatorial

O kaminho decolonial ou kontra-kolonial é longo e cheio de pedras, mas não são as pedras que devem ser condenadas: as pedras nos cantam sobre os futuros, são nossas aliadas.

Ilustração de Lia Cunha

Foto Fantasma – Teatralidade e os presentes da performance

As fotografias sujam a presença pura da performance, tiram sarro dela, pedem revisão histórica e clamam pelo acerto de contas.

Ilustração de Flávia Bomfim
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