Direito de resposta


Confesso que vi com sincero desapontamento o texto assinado por Val Souza, sob o título “ White privilege and corpos que importam: como falar de coisas invisíveis?”, publicado no número 10 da revista online Barril, que acabo de conhecer, por via de ver meu nome citado ali.[1]

O texto me entristece porque me tomou exatamente pelo oposto do que pretendo ser.

A autora diz que não respondi satisfatoriamente à pergunta que fez. Mas se foi assim por que escolheu escrever este artigo ao invés de demonstrar pessoalmente sua insatifação com a minha resposta? Me fez pensar que mesmo fazendo todas as ressalvas que fiz – e que devem estar registradas e gravadas pois certamente o curador Ricardo Biriba se encarregou disso, mesmo assim, parece que seria inevitável que alguém entendesse tudo que pretendi dizer exatamente pelo avesso do que me esforcei em falar.

“White privilege” é um termo muito agressivo sobretudo quando se pensa de onde ele vem, pois origina-se de sistemas sociais racistas nos quais se faz a reserva de lugares para brancos manterem uma supremacia sócio-econômica já que o delírio de sua suposta supremacia racial jamais conseguiu ser aceito pela modernidade. É mais agressivo ainda quando se dirige a alguém que escolheu precisamente abandonar as consequências desse priviégio que certamente teve. Digo isso porque fiz graduação numa universidade pública e mestrado e doutorado em uma privada. Após vinte anos de São Paulo, dei por encerrado esse ciclo quando fiz um concurso para a UFRB – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – onde agora trabalho. Foi uma escolha pensada. Sou novo aqui mas alguns me conhecem talvez por ter sido apresentado a interessados em performance por ocasião de uma palestra que fiz no saudoso Café da Walter, justamente sobre o mesmo tema. Nasci, mas não fui criado em Recife, e não por minha escolha, cresci no Estado do Rio e fiz Letras na UFRJ. Vir para uma Universidade cujo corpo discente é formado majoritariamente por negros e pobres, isso também foi uma escolha.

Tenho mais  orgulho ainda de ser aceito e participar como músico do coletivo Novos Cachoeiranos, projeto de extensão que o meu colega, prof. Solon Mendes, catarinense de Joaçaba, vem desenvolvendo em Cachoeira com alunos de música da Lira Siciliana e da Minerva e que acaba de apresentar com muito sucesso no III Festival de Jazz do Recôncavo. Meu prazer ali é o de ser não “o protagonista” mas apenas alguém – como alguns de meus colegas – que vêm ajudar a tornar visíveis os corpos negros que a música liberta, ao demonstrar sua força, seu vigor. Em prol deles eu mobilizo minha medianíssima capacidade musical para “fazer cama” – como se diz em música – para seus extraordinários recursos que encantam todo mundo, por exemplo, com o sax do Vitor ou o trumpete da Julia, mulher, negra, de 11 anos de idade, que está se destacando no grupo (Alex Simões, da equipe da Barril, esteve em um de nossos ensaios). E tenho a satisfação de dizer que aquele dia, na Walter, e os outros que agora vivo, foram fruto de amizades que também me dão orgulho. Pessoas que vêm das gerações de artistas que ajudei a formar desde 2001 na Graduação em Comunicação das Artes do Corpo, na PUC-SP.  Também estão aqui na Bahia – e no mundo – tais como Michele Matiuzzi, Ana Rizek, Luciano da Silva. Outros amigos também foram influentes na escolha, como o querido Ayrson Heráclito, que a autora também menciona, um artista cujo trabalho sempre me encantou e cuja dignidade e grandeza ultrapassam todas as marcas de discriminação, representando uma vitória que é sua, por sua força, por seu vigor. Comemoro, com ele esse evento que coloca um negro baiano na Bienal de Veneza e me sinto honrradíssimo de ter podido contribuir, com minha amizade e apoio de muitos anos, para que esse acontecimento ora se dê.

Todo o período após meu doutorado – e mesmo durante – correspondeu à era FHC que, como se sabe, sucateou a Universidade pública e sonegou a uma geração inteira a possibilidade dessa retribuição ao não permitir concursos para as IEFs.  Queria assinalar esse detalhe, porque me parece importante e porque justifica o fato de que meu Currículo Lattes tenha a inscrição que, acidentalmente, Ricaro Biriba leu ao me apresentar. Remeto o leitor, para não ocupar inadequadamente este espaço, a esta apresentação em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4762166Z4. A autora do artigo certamente não foi buscar essa informação pois do contrário não escreveria que eu teria iniciado minha fala  “se autonomeando contra o governo em exercício e bradando um: FORA … (aquele que não deve ser nomeado)”. Na verdade, quem fez isso (e não bradou) foi o Biriba, pois tinha colhido a minha apresentação no Lattes e provavelmente não se deu conta, ao iniciar a leitura, do que ali estava escrito. Nem eu passei esses dados a Biriba, ele agiu como o costume em eventos desse tipo, procurando os dados do professor no Lattes.

E aqui vem o outro dado importante que lamentavelmente a autora omite. É que antes da minha “explanação”, expus de público a razão porque não me referiria ao tema do evento, pedindo desculpas por minha ignorância, esclarecendo que atendia ao amável convite do Professor Biriba e, como o próprio assinalou, à insistência de meu querido amigo e colega de Universidade, Ayrson Heráclito. A ambos adverti que só poderia falar de minha própria experiência como artista da performance, professor. Concordamos que poderia ser proveitoso que eu trouxesse o meu percurso como um dos organizadores da única Associação de Performers do Brasil e de um Festival de escopo internacional (com um “braço” em Santo Amaro em 2016), por coincidência da mesma idade do que o que me convidava e do qual o Prof. Biriba é o curador. A propósito disso, e ao contrário do que a autora afirma, acharia desrespeitoso, isso sim, ir a um evento desses deitar falação sobre algo que não domino.

Escrevo essa réplica só para expressar minha tristeza face à incompreensão da autora. E citar para ela e para os leitores dessa revista os versos de Emily Dickinson que hoje me representam tão bem: “I am nobody/Are you nobody too?”

Obrigado.

[1]                      Devido a limitações de espaço da revista, esse texto segue com algumas partes retiradas de sua redação original. Para os interessados, posso enviar a redação completa pelo email [email protected]. Também será possível lê-la, sob a forma de nota, na minha timeline do Facebook

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