Ensaio | Cênicas


ELOGIO AO HOBBY

julho de 2017

Edição: 14


Engana-se quem pensa que metáfora, metonímia, perífrase – para não citar termos mais estranhos como a prosopopeia – só servem para compor o vocabulário de estudiosos, ou para passar em concursos públicos. Se na Antiguidade as figuras de linguagem eram o assunto preferido dos mal-afamados retóricos, hoje elas reaparecem com frequência nos estudos filosóficos em que se propõe a investigação das projeções da realidade que fazemos através da linguagem. Um exemplo rápido: “Tempo é dinheiro”. Esse mote já batido da sociedade capitalista é uma metáfora que implica em uma série de desdobramentos. Dela vêm expressões como “gastar tempo”, “economizar tempo” e “investir tempo”. Uma variação aparece quando se inclui a própria interação humana na conta; tem-se, então, o perverso “investir tempo no relacionamento”. Diante desses automatismos em comunicação, surge uma boa oportunidade para se lembrar o conselho do professor Antônio Cândido: “Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida”.

Não são poucos os pensadores que têm analisado metáforas encrustadas na fala cotidiana com o objetivo de reconfigurar as compreensões de mundo operada através delas. O vaso, a propriedade privada e a esponja[1], por exemplo, não seriam dispositivos adequados para conceber a relação entre o saber e o indivíduo; afinal, não vivemos para conter o conhecimento, nem para dele sermos donos ou locatários; tampouco o absorvemos e expulsamos. Em contramão espiralada, surgem outras concepções para os vínculos que vibram entre o mundo e as ideias, pois há o diálogo, a prática e o movimento. O tempo do saber é o da conversa travada entre dois corpos incapazes de suportar a imobilidade.

Assim também é a vida, que estala em centelhas arredias a qualquer instância de contenção. Não há vaso, urna ou caixa que possam encerrá-la, ou representá-la como contentor. No entanto, fala-se com frequência nestes termos: “minha vida está vazia”, “fulano tem a vida plena”, “Santa X guardou a vida para Deus”. Acontece que, diferentemente do dinheiro/tempo, a metáfora da vida enquanto recipiente é mais natural, quase tentadora, pois a percepção de vazio/plenitude nos acompanha com insistência. Quando nutrimos um grande amor, uma amizade sólida ou um trabalho ideal, nem sequer pensamos na sensação de vazio que o peito nos impõe no momento da perda. Então, na experiência do luto, vivemos nosso interior como uma nave de catedral gótica e dentro dela sentimos a brasa ou gelo do ar que outrora respirávamos fresco. Na continuidade da espiral, após delícia e dor, isto é, no período de consciência do vaso meio cheio, dizemos que nos sentimos… vivos.

Toda essa concepção é um resíduo cristalizado por camadas acumuladas umas sobre as outras durante a experiência humana da linguagem – poesia gasta. Só é possível estabilizar os pulsos errantes da vida em contentores mediante um estreitamento conceitual que serve a interesses imediatos: o consolo para a carência, a segurança do homem médio, o afago no ego de sucesso. As narrativas que servem a tais interesses podem ser as mais frequentes na história, mas de modo algum são as únicas. Viver para além do contentor sempre foi uma alternativa, e essa alternativa envolve uma grande parcela de desinteresse. É aqui que sugiro o hobby como forte operação metafórica em favor da vida.

A palavra hobby chega através do inglês médio hobi, que significava cavalo pequeno, pônei, sendo mais tarde registrada na forma hobbyhorse referindo-se ao cavalinho de pau das crianças e a atividades que não levam a lugar algum. É interessante notar que o sentido moderno da palavra como “assuntos, objetos, ou tópicos favoritos” apareça justamente na era sagrada do pragmatismo, o século XIX. Preferimos aqui o sentido que alude ao gozo da criança cavalgando com as próprias pernas um terreno que obedece às regras de sua imaginação[2]. É a sensação de alegria que deveria ser compartilhada pelos adultos que cultivam hobbies na clave da paixão.

Seria escusado dizer que uma vida baseada apenas em sono, alimentação, trabalho e sexo constitui um fracasso em mi maior, mas há quem viva assim. São os que chamaremos de pessoas desinteressantes. E não pense que elas são casos de exceção. Uma alta executiva pode ir a festas, fazer ginástica ou ir a exposições de arte com o único interesse de fortalecer sua network e fechar novos negócios. De modo semelhante, imagine o emprego mais incrível do mundo, o viajante profissional que escreve ou tem um programa sobre turismo; ele recebe para viajar. Esse ser humano pode ser infinitamente desagradável se suas atividades e seu papo sempre girarem em torno dos incríveis lugares que visitou e dos próximos incríveis destinos.

Mas há os que dormem, comem, trabalham, transam e cultivam hobbies. Quanta diferença nesses seres! Essas são as pessoas desinteressadas, portanto as mais interessantes. Não que sejam totalmente desinteressadas, pelo contrário. São presidentes cinéfilos, funcionários públicos maratonistas ou vagabundos imbatíveis no xadrez. Para um hobby constituir-se enquanto tal é preciso entendê-lo como um desvio, uma alternativa. Como uma tarde besta na frente de um videogame.

Vejamos o caso de Chico Buarque e Pelé; assim com para o primeiro a música não pode ser um hobby, tampouco o futebol pode sê-lo para o segundo. Quando é esse o assunto, pensa-se logo em esportes, jardinagem, leitura, costura, desenho, jogos, mas não há limites para fazer de algo uma paixão capaz de abrir novas dimensões regidas pelas ordens do gratuito e do acaso. Catherine Millet e o Marquês de Sade, por exemplo, fizeram do sexo seu grande hobby. Ambos acharam um contraponto digno para a famosa solidão dos escritores.

Nem toda atividade de entretenimento exercida a esmo está compreendida nesse âmbito. Um hobby requer constância, um método construído sobre as bases do prazer. Prova disso é que a sua interrupção sempre vem acompanhada de sofrimento. Senhores de nossos narizes, na vida adulta associamos a dor à perda de pessoas e coisas, mas basta lembrar os castigos paternos para evocarmos a sombria inclemência dos confiscos.

Quando praticamos nossos hobbies saímos de nós mesmos, sentimos a realidade e as pessoas que nos cercam de um modo diferente. Numa partida de tênis, pouco importa se você está satisfeito com seu trabalho no escritório ou se seu adversário ainda chora a morte da mãe, pois o pacto estabelecido na quadra está fundado na força dos saques e na eficiência dos forehands. Algo semelhante acontece quando dois fanáticos por música se encontram numa mesa de bar; suas vidas, sejam elas bem sucedidas ou desgraçadas, são secundárias diante dos discos que apreciam. Em dissonância com a mesmice da subsistência, esses exercícios compartilhados reforçam uma perspectiva desinteressada da existência.

Outro caso intrigante que guarda mistérios envolve mais um francês. Quão mágica terá sido a chegada das tintas e das telas no quarto do convalescente Henri Matisse[3]? Como ele terá se sentido naqueles primeiros dias de liberdade acamada? Despojado de ambição e de vigor físico, mas por dentro radioso como cauda a de um pavão. Não me refiro ao despertar do pintor profissional, à descoberta de seu talento irrefutável. Intriga-me justamente o período em que as tintas fundavam mundos cuja atmosfera e gravidade nada tinham a ver com a dos salões de arte parisienses. Nesse breve interstício brilha uma das maravilhas da matéria em questão.

O hobby estende um tempo de conhecimento entre pessoas vulneráveis ao arrebatamento. Ao exercê-lo, liberamos metáforas e outras figuras reveladoras. Não se trata de preencher o vazio da vida, mas de propor uma temporalidade capaz de contaminar o cotidiano. Para além do dinheiro e dos contentores, o hobby mostra que a vida – universal – palpita e canta.

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[1]    São muito comuns construções verbais constituídas por esses três eixos, em expressões como “guardar um conhecimento”, “deter/perder um grande saber” e “absorver uma matéria”.

[2]   A cena remete à crueza de Machado de Assis quando ele derrama sua tinta acre até mesmo sobre essa atividade pueril. O cavalo de brinquedo de Brás Cubas era Prudêncio, um escravo da família: “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia…” Por ora, não sejamos tão sombrios quanto o bruxo.

[3]    Em 1889, o jovem aspirante a advogado se curava de uma crise de apendicite. Para aplacar o tédio do rapaz, sua mãe lhe leva uma caixa com tintas e algumas telas. O resto se sabe.

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