Crítica | Cênicas


Foto de Talitha Andrade

FISSURA DE FISSURA

abril de 2016

Edição: 3


Crítica de Maçã – Um Acontecimento Cênico, do Coletivo COATO

 Não tem muito tempo que em uma mesa de bar disse com tom embriagado, e talvez empolado demais, que ninguém no campo artístico, especificamente nas artes cênicas, poderia usar acontecimento sem ao menos ter uma básica noção fenomenológica quanto ao termo – logo eu, um “diletante-simpatizante” da fenomenologia. Embora tenha dito isso numa informalidade incondicional, tenho a sensação de que a arte perdeu sua qualidade de fenômeno há muito. Na verdade, arrisco a dizer que não saberia ao certo localizar em que momento da história a arte alcançou tal qualidade, mas que muitos ultrapassaram aquele limítrofe atraente se encontrando com a tão romantizada loucura artística no lugar de algo “fenomenal”, isso bem que aconteceu.

No entanto – embora muitos romantizem a loucura como o próprio acontecimento – há quem diga que é justamente esta demarcação, este limite, num jogo de contrassensos e paradoxos, o espaço ideal para que algo aconteça, o que não é equívoco. Neste caso, não há, em absoluto, uma ideia de não-lugar à Marc Augé, mas uma interação dual e, a certo ponto, modal – isso para lançar aqui, de maneira elementar, uma análise de Deleuze sobre a obra de Carroll.

Nunca senti a necessidade de discorrer sobre este tema com mais vigor, e muito mais fôlego, até ver Maçã, peça de pré-formatura em direção teatral de Marcus Lobo e primeiro adejo do Coletivo COATO, que leva em seu subtítulo Um Acontecimento Cênico. O subtítulo intriga, principalmente aqueles que em algum momento constituíram um confronto maçante com o termo, como eu. Mas seria necessário um espaço mais aberto, mais poroso até, a exemplo da Coluna Ensaio aqui na Barril, para desfiarmos este imbróglio não-dialético – posto que o meu “primeiro escrito sobre Maçã” saiu completamente da obra em si, avançando quase mais do que quatro páginas, para discorrer sobre esse “conceito” que irrompe, inclusive politicamente.

Tentarei ser direto, para fugir aqui de minha natural prolixidade: Não considero Maçã um acontecimento cênico. Partirei daqui para não cair nas tentações demasiadas fora da borda. Com inclusão, tenho imensa curiosidade de saber o que levou a utilização deste subtítulo e a leve impressão de que os artistas se consumiram com a definição de “escolha”. Ou seja, o ato de escolher como um verdadeiro acontecimento

Mesmo que a escolha possa se configurar em um – muito mais na vertigem, no dinamismo e na cólera da vida ordinária – Maçã, em si, não se configura como tal. Parto do pressuposto que a categoria cogente de verdade que satura Maçã perpassa, ou é suscitada, por uma proposição artística condicional, circunscrita a uma série de cláusulas do que é entendido, ou melhor, difundido por arte .contemporânea nas cênicas, o que acaba por devorar, inclusive, suas propensas intenções temáticas: relações sociais, gênero, política. Não seria problemático se a verdade emanada não parecesse imposta, tal qual resquícios do “bom teatro”, e muito menos se a obra não assegurasse um acontecimento.

Pois bem, Maçã está mais para uma conferência performática do que para uma composição que propicie uma vivência da experiência de um tempo oportuno. Não há interstícios, fendas que seja, para esse tempo surgir, muito menos uma intenção, retificando, uma mobilização para tal. Trazendo aqui um conceito mais filosófico, o acontecimento pode se configurar num tempo em potencial, que, obviamente, se sente convidado para surgir a partir de alguns possíveis disparadores ou de um rígido agenciamento, que no caso das artes cênicas pode ser feito pelos próprios performers. Já eu, me refiro ao acontecimento como uma incursão de algo que é tão alarmante que uma mudança irreversível se organiza em meu organismo, a partir de uma abertura não-consentida, ou consentida, de “minha consciência”, o que me faz conjecturar se o acontecimento é capaz de ser engendrado, estampado ou pensado a priori (algo categoricamente intencional me parece avesso ao que pode acontecer), pois que ele surge dentro do campo de uma percepção, campo de virtualidade, pois – novamente, deixemos para um futuro texto. O fato é que propiciando ou não um espaço para, o acontecimento nunca está na posse do pobre desejante. Poderia dizer então: Não falem mais de acontecimento, porque ele se boicota e não vem, mas longe de mim atenuar as fissuras estéticas.

A proposição do COATO, lança mão destas possibilidades (filosóficas?), apostando na atraente frequência dos cânones difundidos como pós-dramáticos/performáticos/teatros performativos – atire a primeira pedra quem nunca se sentiu convidado a isso, não é Diego? –, a partir de vídeos com transmissão simultânea, coreografias, belas fotografias, vozes no microfone e etc.   De modo nenhum, não vejo problemas na reprodução destes cânones se eles se propõe a se transformar numa espécie de faca, sustentações para pujantes impulsos e emancipando o artista, e aquele que compartilha da obra, de uma estrutura artística que se mantém alheia e, por vezes, irritantemente apática. Sem este pensamento disparador, a proposição se torna refém da utilidade histórica destes elementos, impossibilitando o acontecimento principalmente quando ele é desejado, quisto, como as borboletas metafóricas dos haicais e ditados japoneses. É o caso de Maçã que não propicia um espaço para essas irrupções mesmo sustentando o compromisso em seu subtítulo.

Pois bem, Maçã está mais para uma conferência performática do que para uma composição que propicie uma vivência da experiência de um tempo oportuno. Não há interstícios, fendas que seja, para esse tempo surgir, muito menos uma intenção, retificando, uma mobilização para tal.

Rebate à crítica “FISSURA DE FISSURA” de Diego Pinheiro

 Por Coletivo Coato

ps: Antes de ler o texto, ouça a música abaixo.

                                 https://soundcloud.com/karinabuhr/01-dragao

ps²: ela vai especialmente para a mulher que teve a pele mordida ao escolher junto com outras presentes em comer a MAÇÃ.

ps³: música que embala os encontros de MAÇÃ e que nós faz todx o senti(r)do.

Rebate 1.

O subtítulo da MAÇÃ, surge como uma provocação as colaboradoras do COATO, onde desejam que tal encontro se torne um acontecimenta para nós. Assim sendo, nos afetamos e buscamos descobrir no fazer – fazendo, que grau de participação a espectadora poderia atuar em nossa composição. Há muita coisa por trás de uma coisa só, e que ainda não se foi explorada devido ao condicionamenta de estar como ouvinte a algo. E que nesta acontecimenta, expandimos a definição do termo para a criação deste compartilhamento de necessidades a serem lançadas, e experimentamos o não rodopiar ou causar cinestesicamente por contínuos espirais de algum estímulo das performers, direcionando um desejo de presentificar esta outra, mas aguçar e abrir – expor – foco – centralizar e/ou minimizar intensidade de cooperação desta que escolheu. 1+1= 3. O que nos resta agora, incorporadas por todas as experiências vividas no Laboratório de Experimentação Estética, é que ainda continuamos pisando entre ar, e acontecendo para quem deseja vivenciar um dia/dois/três… Porque de ocorrências em diferentes ângulos do espaço de atuação, e da sensação expandida pelo insistente desejo de pipocar a outra pessoa como acontecimenta, nos faz escorrer e cair das estritas e denominadas conclusões estáveis.

Danilo Lima.

Rebate 2.

Já falamos sobre uma acontecimentA?

O que fazemos já aconteceu. Com uma dezena de pessoas Trans, mulheres, héteras, bixas, contempladas em poder ver ali naquele discurso uma aproximação – aproximação – aproxima-ação, tão potente que as faziam voltar e voltar e voltar, não pela necessidade de rodopiar conoscx, mas em se ver. As pessoas ainda vão ao teatro para decifrar enigmas, se ocupar por um tempo sobre algo, quando poderiam apenas viver, para o bem ou para o mau, VIVER. Nós, [email protected], não desejaríamxs ter que se preocupar com o academicismo que pode normatizar e direcionar a criação, ENQUADRAR o termo acontecimento, “passar por cima de uma coisa que ta no lugar da outra” o acontecimento não pode se manifestar de formas diferentes? (sempre fui menos CDF para termos – Marcus) Gosto da sonoridade da palavra L.o.u.c.u.r.a. gosto da sonoridade de algumas dúzias de palavras de ação. De fato, nós pessoas/artistas poderíamxs conseguir viver a angústia de não dar nomes às coisas, e sim vivê-la, excessivamente e com toda a sinceridade que nos move. É isso, rasgamos a cartilha e jogamos – para o alto as folhas que definem um acontecimento. Pensamos agora, que talvez, deveríamos ter nomeado Maçã uma acontecimentA cênica, assim estaríamos sendo honestas com x nossx suor dado em corpa/voz. Por fim, já não era mais acontecimento e sim acontecimentA, por que era nosso. Estamos mudando e buscando nomenclaturas menos fechadas já que infelizmente isso é uma tendência das belas artes. As artes feias não são nomeadas. Sugerimos!
Marcus Lobo e Simone Portugal

Rebate 3.

A.c.o.n.t.e.c.e que somxs Vadias. Isso mexmo, nxs apropriamos dos termos, conceitos, do significado que os cânones dão a determinadxs signos linguísticos e xs alargamxs, xs

esticamxs… esticamxs… esticamxs… fazemxs nossa bruxaria até suas partículas se mutarem e borrarem as definições ditadas por cartilhas – que nxs fazem espirrar com o cheiro de naftalina.

…pausa para um café…

Ficar presxs à nomenclaturas é coisa de quem acredita em gênero. O que fizemos já aconteceu. Por fim já não é mais o que era, já trocou de pele, mas só revelaremxs o que será quando comermxs novamente dessa Maçã amarga.

Roberta Nascimento e Natielly Santos

Rebate 4.

Toca Elis.

Maurício Pedreira.

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