Crítica | Cênicas


Ilustração de Milton Mastabi

31 de janeiro de 2020

7h11m. Me dei conta das horas com desgosto. Acordei, mais uma vez, cedo demais. Com um olho ainda fechado, procurei tateante o fósforo para acender o fogo e passar um café. Abro o caderno e escrevo enquanto espero a água ferver. Me sinto ressaqueada, mas não bebi nada ontem. Tenho ressaca de um filme que vi na véspera e que não deixa meu pensamento em paz. Depois que assisti Nostalgia da luz(2010), martela na minha cabeça a ideia fixa de que o passado é tudo o que temos, nos rodeia, nos consome, nos come por dentro. O tempo não é nem o presente fugaz, nem o futuro intangível, o tempo é só o passado. Agora consigo ver o tempo sendo impiedoso a cada centímetro que se acrescenta à minha filha toda vez que ela acorda. O tempo a tudo corrói, dos asteroides à areia do deserto do Atacama.

Enquanto coava o café constatei que ao menos hoje é um dia oportuno para acordar com ressacas filosóficas sobre o tempo. Vou assistir uma peça que vi a uns 18 anos atrás. Era menina, deveria ter 16 anos, as datas estão difusas, há chances de também estarem erradas. A peça é Seu Bomfim. Me lembro que ao sair do teatro eu levava um certo deslumbramento comigo, a sensação de ter visto algo que me marcaria por muito tempo. E cá estou, muitos imprecisos anos após, indo revê-la, e por mais que não queria assumir, tenho expectativas de resgatar aquele sentimento pueril e mágico da juventude. A incipiente juventude, bem antes da vida esquartejar os planos.

8h57m. Acabo a sessão masoquista diária de rolar o feed do Instagram. Volto a pensar na nostalgia, porém mais especificamente em sua popularidade. Parece que hoje vivemos uma espécie de exaltação da lembrança, haja visto a enxurrada de memes do tipo que pedem curtidas se você também já teve um garfo de inox com um palhacinho na ponta. Esse é o tipo de nostalgia mais chata que pode existir, porque é forçada, e não deixa a memória em paz. Ela força a memória a aparecer como se fosse algo incólume. A ironia é que de uma outra forma é exatamente isso o que eu vou fazer hoje ao rever Seu Bonfim: forçar a memória a manifestar-se, para me emocionar de novo, da mesma forma que me emocionei anos atrás, como se fosse possível voltar no tempo, e como se essa memória estivesse absolutamente preservada, envolvida em uma resina de âmbar. Mas a verdade é que, no fundo no fundo, eu estou com medo de ver a peça de novo e sair de lá decepcionada, fatalmente descobrir que não era nada do que eu imaginava e que eu havia superestimado minha feliz experiência de anos atrás. Afinal, eu era uma adolescente ingênua começando a ler Guimarães Rosa, mas não Grande Sertões ainda, e sim os seus livros de contos, é bom frisar.
Aliás, me lembrei agora, foi justamente por ter lido A terceira margem do rio que fiquei com vontade de ver a peça na época. Recordo exatamente o diálogo que tive com minha professora de literatura, no qual ela me disse que estavam adaptando o texto para o teatro.

14h32m. Essa questão da memória começou a me consumir e eu acabei voltando à um texto de Freud chamado O bloco mágico. Um bloco mágico é como aquele brinquedinho de escrever e apagar, mas esse aludido por Freud retém tudo o que já foi depositado na face apagável em uma superfície abaixo. Freud faz uma analogia desse brinquedo com o aparelho mnemônico, para discorrer sobre um dispositivo no qual as recordações se conservavam, e que, ao mesmo tempo, recebe continuamente novas recordações, ad infinitum. Pensei em como isso se aproxima da memória a longo prazo, e imaginei que esse receptáculo deve se assemelhar àquelas casas habitadas por acumuladores compulsivos. Seguindo esse raciocínio, as memórias que guardamos por mais tempo se aglutinam em algum lugar do lobo temporal medial, e no fim das contas elas se sobrepõem, se fundem, se misturam, perdem os contornos. Recordar é catar acontecimentos nessa bagunça generalizada e preencher os vazios com o que a imaginação achar mais conveniente. Já não é novidade afirmar que a memória muitas vezes não passa de uma invenção e que, como bons neuróticos que somos, precisamos desconfiar sempre dela. Mas isso não quer dizer que a memória é uma mentira. Esse discurso já foi aplicado ao teatro, que habita um limbo muito próximo ao da memória, entre jogo, simulação e performance. A recordação da conversa que tive com a professora de literatura, por exemplo, não pode ser uma fraude. Tem certas lembranças que surgem vívidas só com o cheiro. Prefiro pensar que memória não é fingimento, mas sim que opera uma montagem a partir de recortes imagéticos das mais diversas origens para configurar uma cena que já ocorreu. A lembrança é uma encenação criada para representar algo que precisamos, por algum motivo, acreditar que existiu.

15h40m. Recorri aos meus velhos diários para tentar precisar o ano em que vi Seu Bomfim. Foi um autoflagelo reler aquelas páginas mal escritas da minha juventude. Não encontrei nada que pudesse me ajudar, mas me deparei com uma citação de Saramago que dizia que o esquecimento é a lei da vida. Agora essa frase adquire um significado totalmente diferente pra mim. O peso da memória é devastador. Se a gente não esquece, se a gente não recalca, se não bloqueamos certas coisas, viver fica mesmo impossível.

17h12m. Eis a cena deliberadamente montada na minha lembrança de Seu Bonfim, 18 anos atrás:  Entrei no teatro frio e escuro da sala do coro, me sentei nas cadeiras que ficam no alto, à direita, bem no cantinho. O teatro estava cheio. A peça tinha um tom amarelado e marrom, uma luz alaranjada, como se se passasse em um lugar desértico. No centro do palco estava Seu Bonfim sentado no chão. Reconheci algumas partes do conto de Guimarães Rosa. Como vivia meus anos de aspirante à atriz, minha atenção se concentrou nas questões de interpretação. Fiquei admirada como o personagem, nada fácil de se representar, pois é velho, louco, capenga, bêbado e ainda oscila entre a comédia e o drama, saía de forma tão natural do corpo do ator, parecendo que nenhum esforço foi feito para ele estar ali. O público foi às gargalhadas na hora da piada do “quem guarda tem”. Em certo momento ele falou alguma coisa que já ouvi na boca da minha bisavó, e então pensei nela, em sua velhice, e na finitude dos seus dias que logo chegaria. Fiquei com o choro preso na garganta.

Mal sabia eu na época que ela ainda iria viver para carregar a tataraneta no colo.

As horas me avisam que é melhor chamar logo o uber.

19h11m. Entrei no teatro quente e improvisado na Casa XIV, sentei na primeira fileira da arquibancada, tão perto do palco que me senti incomodada. Abri o caderno, tirei a caneta da bolsa. Sempre penso em como esse gesto é pedante. Os barulhos do Pelourinho adentram o teatro e todos já estão contaminados pela agitação pré-carnavalesca que se espalha pela cidade. Sim, é verdade, tinha uma lona que cobria o palco. Há um zumbido no som. Dois ventiladores tentam conter o calor. As janelas precisam permanecer abertas. Parece que tudo aqui é o avesso da minha primeira experiência.

19h41m. Seu Bomfim também é sobre o tempo e sua impiedade, é sobre caminhar entre ruínas, estar na terceira margem, onde não há ancoragem possível.

19h55m. Tudo já está no corpo, tudo sempre esteve no corpo.

20h18m. A decadência e destruição que o personagem traz e que também está na própria condição do teatro, condiz com o estado da arte hoje. Não há leitura dissociada de sua época, ao tempo nada escapa.

21h40m. Voltei pra casa pensando na capacidade de absorção que a peça tem, de fato. A certa altura, apesar de todas as adversidades, eu só escutava a voz do velho e a sua história. Visualizei o velho falando sozinho nas vielas que cercam o Pelourinho. Talvez aquele mesmo velho estaria agora perambulando pela Barroquinha deserta, talvez esse velho também morresse essa noite na escadaria de alguma igreja. Que resgate de memória essa peça tem perante a vida de outros corpos? Quantas histórias que estão tão à margem e que jamais serão contatas se personificam ali? Seu Bomfim transfigura para a cena um corpo negro e envelhecido que foi jogado para o esquecimento. Eu percebi isso anos atrás? Acho que até percebi, mas só hoje consigo colocar em palavras.

De todo o modo, não senti mais aquele deslumbramento, por mais que procurasse por ele em todos os lugares. Não achei o motivo pelo qual, da primeira vez que vi a peça, saí dizendo que era a melhor coisa que já tinha visto. Mas pude ter a certeza de que a lembrança não se desvaneceu, está nítida ainda, e talvez ser memorável seja mais interessante do que ser a melhor.

01h21m. Rever Seu Bomfim hoje me fez pensar também sobre a memória tecida apenas no corpo, sem palavras, pois tudo ali reluzia uma lembrança que é aparente e silenciosa. Seria uma memória alocada fora do cérebro, que se gruda nos movimentos das articulações, no peso que sobrecarrega uma perna mais que outra, no entortar da boca, no contorcer dos músculos quando os braços remam o rio invisível.

Jogo no Google “memória” e descubro que de fato há um tipo de memória inenarrável, justamente a memória dos gestos automáticos que usamos para andar de bicicleta, como exemplifica grosseiramente a Wikipedia. Seria essa, portanto, a memória de um personagem no corpo de um ator. Por essa analogia, Fábio Vidal pedala por um caminho que já conhece todos os desvios que deve tomar, e que poderia fazer de olhos fechados. Justamente por isso, havia alguma coisa já desgastada, o personagem lutava para continuar existindo naquele corpo, ainda que brevemente. Ou talvez a engrenagem que movimenta a corrente da bicicleta estivesse puída. Mas não é pra menos. O peso da memória de Seu Bomfim extrapola o gesto. Ela é mais antiga que os 20 anos da peça. Ela chega aos confins do inconsciente coletivo, carrega símbolos milenares, retoma a memória ancestral retida no corpo do ator, delicia-se nas fantasias do público e leva no bojo até mesmo as lembranças irrastreáveis do próprio Guimarães Rosa.

A memória e o tempo elevam a gravidade imaterial dos corpos. Estamos exauridos pelo volume de passado que carregamos. Não reconheço mais, nem em mim, nem na peça, aquela ânsia por vivacidade. Nós envelhecemos. Perdemos o vigor dos anos nos quais mal sabíamos do grotesco que estava à espreita. Chego agora no ponto no qual a melancolia é inevitável.Efeitos destrutivos do tempo. Novamente, o tempo. Amanhã eu acordo com ressaca de Seu Bomfim.


Ana Carolina Oliveira é crítica e pesquisadora. 

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