Selfie | Cênicas


Ilustração de Lia Cunha

Não acredito que a covid nos separa

fevereiro de 2021

Edição: 21


No início deste ano, almoçava no apartamento de um amigo quando reparei a máxima que serve de título a este texto pichada na parede do prédio oposto ao seu. Toni Castells mora no 20º distrito de Paris, antigo coração industrial da cidade, uma zona cheia de bares e casas de shows.

Tomei nota. Quero dizer, não precisei anotar nem mesmo memorizar. Era como se a reconhecesse, como se eu mesmo a houvesse formulado. No momento em que li a máxima em voz alta, nossa sobrancelha se levantou, os ombros pesaram, a cabeça se inclinou e um sorriso em diagonal retorceu nosso rosto. Toni poderia ter pichado aquela frase. Eu também. Mas não foi nem ele nem eu quem a pichou, embora tenhamos corporado seu efeito. Sentamos. À vista, sobre a mesa, o livro que acompanhava sua vida noturna: Massa e poder, de Elias Canetti. O título parecia conversar com o que acabava de ler pela janela. Pedi licença, peguei o objeto, abri a primeira página. Subtítulo: “Inversão do temor de ser tocado”. Li a primeira parte em voz alta: “Não existe nada que o homem mais tema do que ser tocado pelo desconhecido. Ele quer saber quem o está agarrando; ele o quer reconhecer ou, pelo menos, classificar. O homem sempre evita o contato com o estranho. De noite ou em locais escuros, o terror diante de um contato inesperado pode converter-se em pânico. Nem mesmo a roupa oferece segurança suficiente; é fácil rasgá-la, é fácil chegar até a carne nua, lisa e indefesa do agredido. Todas as distâncias que o homem criou em torno de si surgiram a partir deste temor de ser tocado.”

Em um primeiro momento, pensamos nas várias vezes que forjamos estar disponíveis nos aplicativos de encontro. Quem usa sabe: perde-se mais tempo on-line que off-line. Concordamos com Canetti. Em um segundo momento, discordamos de Canetti: é possível que o autor nunca tenha entrado na sala escura de um clube lgbtqia+. Nessas salas, também chamadas de darkrooms, as pessoas se tocam sem se ver: vestidas, seminuas, nuas, com e sem camisinha.

Em um terceiro momento, Toni, que esteve no Brasil no dia 26 de setembro de 2017, lembrou-se da apresentação de La Bête no Museu de Arte Moderna de São Paulo, durante a abertura do 35º Panorama da Arte Brasileira: Brasil por multiplicação. Deu vontade de enviar o registro da performance ao escritor búlgaro, para que ele pudesse ver o corpo de um artista, nu, tocado, dobrado e desdobrado por desconhecidos. Será que ele escreveria uma nova abertura para seu ensaio? Toni apanhou o livro de minhas mãos. Releu a primeira frase em voz alta. “Não existe nada que o homem mais tema do que ser tocado pelo desconhecido”. Perguntou: “O que é um homem quando se pensa em La Bête”? Eu, que na performance ocupo o lugar de um objeto, perdi a voz. Porque é verdade, não sou um objeto, sou mesmo um homem que finge ser um objeto, assim como Fernando Pessoa em Autopsicografia. Tomei um copo d’água porque a pergunta era demasiadamente frontal para uma tarde de sábado. Até então, jogávamos com os códigos que se apresentavam fortuitamente. De súbito, a conversa se tornou biográfica. Como um dentre os milhares apaixonados por Nina Simone, lancei contra a pergunta de Toni a fúria criativa da cantora e compositora. Quando foi abordada sobre o sentido da liberdade, Simone replicou: “É dever de um artista refletir os tempos em que vivemos. Vou lhe dizer o que é liberdade para mim: não ter medo. Não estou brincando, é de fato não ter medo”. É que Toni não havia perguntado o que era ser um homem em La Bête, mas, assegurado com sua pergunta, que toda pessoa teme — uma outra pessoa? Para desafiar essa pergunta em cena, precisei tomar a forma de um objeto porque enquanto pessoa, homem, sujeito — ou seja qual for a definição de meu corpo no mundo para os pensadores — eu não conseguiria. E esse foi um dos agravos dos ataques contra a performance, contra a arte, contra mim. Do dia para a noite, deixava de agir como alguém que fingia ser um objeto, haviam me transformado em gente. E, como gente, o medo do desconhecido acirrou.

Durante as apresentações anteriores à de 2017, antes de entrar em cena, eu me preparava para receber o desconhecido. Fazia a minha ioga, exercícios de respiração e, principalmente, dobrava a atenção sobre uma frase: “não julgar”. Não julgar nada, nem ninguém. Não julgar a postura que as pessoas poderiam criar em meu corpo; não julgar nem mesmo as pessoas. Estava mais conectado ao que se passava durante a performance do que as pessoas poderiam acreditar. Geralmente, perguntavam se eu estava em transe. Eu respondia que não. Pois se o transe nos convida a dar um passeio do lado de fora do corpo, em La Bête estou conectado ao que acontece no corpo enquanto outras pessoas o tocam. Preciso estar atento para receber o comando do outro, do desconhecido.

Desconhecer faz parte da vida; do sair de casa e atravessar a rua; do sentir-se dentro e fora dos fatos. Canetti menciona ainda que “somente quando imerso na massa é que o homem pode escapar deste temor em relação ao contato. Esta é a única situação na qual o temor se transforma no seu oposto. Para isto é necessária uma massa densa, na qual um corpo se estreita contra outro corpo, densa também na sua constituição anímica, ou seja, quando já não se presta mais atenção a quem ‘se aperta’ contra a gente. Assim que uma pessoa se abandona à massa, ela deixa de temer o seu contato”. Talvez eu tenha que considerar o mundo onde Canetti vive, porque seu pensamento é local; não está livre de ser blindado por uma cerca de experiências que o protege do outro que ele mesmo descreve. Em La Bête, uma pessoa “se aperta” contra mim; às vezes duas, três. Eu não temia esse encontro. Quando a massa decidiu “se apertar” contra La Bête, não pude compreender seu comando. Eram distintos, com intenções divergentes. Como se milhares de mãos tocassem meu corpo ao mesmo tempo. Deixei de ser a réplica da réplica de um Bicho de Lygia Clark; virei homem.

A sensação de medo sempre existiu nas apresentações de La Bête. Anteriores e posteriores a 2017. Em versões diferentes. Mas não era somente a sensação de medo que estava em questão quando entregava meu corpo ao público. Existiam outras sensações que ocupavam o mesmo espaço do medo. Existia uma composição entre o medo e o refletir sobre o medo e o desejo de sentir medo porque sentir esse tipo de medo significava entregar-se a uma experiência, resiliente. Abordar o medo somente como algo que mereça ser reparado nos retira a possibilidade de ora ser gente, ora ser Bicho, ora fingir ser objeto em uma performance, na rua, em casa, na escola, no puteiro.

A conversa lentamente espantou o apetite, mas ele retornou com força quando transformei em palavra uma resposta à pergunta de Toni. A sensação de medo durante a apresentação, se ela existe ou não: ela existe e não existe. Oscila.

Aproveitei para mudar de assunto, para conversar sobre o título deste texto. Joguei uma ideia sobre a mesa: não é uma pandemia que nos separa, mas as abordagens sobre a epidemia. As abordagens — como também nossas crenças, projeções — que nos deixam impávidos frente ao outro, às sensações de risco — para não morrermos, para não deixarmos de ter certeza. E, claro, não era mais sobre uma pandemia que conversávamos, mas sobre como uma discussão pode fazer a fome desaparecer e retornar.

Consegui reapresentar La Bête, no Brasil, dois anos depois dos ataques. Até então, me envolvi com outras apresentações — Domínio Público, A Boba — e com o lançamento de meu primeiro romance, Nunca juntos mas ao mesmo tempo. Até então reagia às agressões enquanto um homem que apresentou uma performance. E enquanto homem, eu tenho medo. Enquanto artista, o medo existe. É diferente. Eu não “tenho” medo. O medo “está lá”. Enquanto homem, escritores como Canetti escrevem livros que ganham o prêmio Nobel. Enquanto artista, eu me desvio desses livros, de teorias ubíquas. Se fosse romance, seríamos amigos.

Voltei a apresentar La Bête como um artista.

Fechamos o livro.


Wagner Schwartz é artista.

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